Tapete de pele de onça


Este texto de Chico Anísio mistura um pouco de diversão e entretenimento. Sua forma de explanar as ideias é um tanto cativante e engraçado, ainda mais se tratando de uma peleia conjugal por conta de tapete de pele de onça sem o menor sentido.

"O grito da mulher foi tão alto que os vizinhos vieram à janela.
__ Na frente do sofá, não!
__ E porque não à frente do sofá?  __ gritou o marido, em resposta à gritaria negativa da mulher.
__ Porque é cafona, porque é mau gosto, porque isso é coisa de mulher da vida.
__ Você não entende nada de decoração __ berrou o marido, dando-lhe as costas.
__ Quem não entende é você, seu bestalhão.

O ambiente estava mais para boxeur do que para sacristão. Marido e mulher ameaçavam engalfinhar-se por motivo idiota: a colocação ou não de um tapete de pele de onça no meio da sala, sob a mesinha do centro, junto à frente do sofá.
Chegou um vizinho.
__ Que é isso, Dona Haydée?
__ Foi bom você ter vindo, Urbano. O Manduca quer botar o tapete de pele de onça em frente ao sofá.
__ Claro __ completou o marido, com um olhar que pedia a concordância do vizinho, o que certamente lhe daria a vitória na discussão.
__ Pode? __ insistia a mulher, veemente, descabelada, roupa em cima do corpo, algo de interessante aparecendo sob o vestido transparente. __ Pode? Um tapete de pele de onça é o símbolo da cafonice. Depois disso, meto um pinguim em cima da geladeira, um São Jorge iluminado por luz vermelha no alto da porta, uma flâmula do Flamengo na sala e ponho, na porta, um capacho com as minhas iniciais.
__ Você é idiota. __ sintetizou o marido.
__ Sou. Veja com quem eu casei e realmente não mereço outro adjetivo.
__ Urbano, eu dou um tapa nessa mulher __ disse o marido ao vizinho, que já se colocava entre os dois.
__ Sabe o que eu penso? __ disse o vizinho mediador. __ Eu acho que tapete de pele de onça é uma coisa de muito valor. O certo é vender o tapete e, com o dinheiro, comprar uma coisa útil.
 __ Concordo __ concordou a mulher.
__  Discordo __ discordou o marido.
__ Discordo por quê? __ ladrou a mulher, recomeçando a briga.


__ Porque uma onça caçada por mim, transformada em tapete, não é apenas decoração, é uma relíquia. É uma prova de que eu sou um caçador. É o testemunho de que eu matei a onça.
__ Nesse ponto ele tem razão __ disse o vizinho.
__ Não se meta __ ordenou Dona Haydée ao vizinho, que tentava ajeitar as coisas de modo a evitar qualquer troço mais sério. __ Vamos vender o tapete e comprar um liquidificador.
__ Para vender o tapete, Haydée __ ameaçou o marido, dedo em riste, cara tensa __ você vai passar por cima do meu cadáver. O tapete vai ficar aqui.
De quatro, ridiculamente de quatro, batia com a mão aberta no chão, mostrando o local exato onde o tapete seria colocado, por fim na força.
__ No dia em que o tapete ficar aqui, no momento em que você ofender a minha casa... minha casa __ sublinhou acintosa __ com essa monstruosidade eu vou embora.
__ A porta da rua é a serventia da casa __ falou o marido aos berros.
__ Calma __ ponderou o vizinho.
__ Repita __ pediu a mulher de mãos nas cadeiras, pernas separadas, cabelo na venta.
__ Eu disse, Dona Haydée __ repetiu o marido, de punhos fechados e rosto para frente em desacato evidente __ que a porta é a serventia da casa.Os incomodados que se mudem.
E apontava frenético, para a porta de entrada do lar, com voz enrouquecida pelo berro que exagerava.
__ Quer ir embora, vai tarde.
O vizinho o segurou pelo braço. Ele tentou desvencilhar-se. Ela ia, mesmo.
__ Me solte, Urbano.
__ Vamos resolver isso como gente. Vocês parecem cão e gato, brigando por uma bobagem. Um tapete de pele de onça é um negócio que vale muito dinheiro, concordo, mas não vale uma flâmula. Vocês têm filhos, gente. Onde já se viu um caso desse tamanho por causa de uma baboseira?
__ Chame minha onça de baboseira de novo. __ ameaçou o marido.
A vila inteira já estava na sala onde a guerra ia crescendo. Urbano, o vizinho, com grande diplomacia, tirou da cabeça de Dona Haydée a ideia de ir embora, fez com que Manduca maneirasse no seu modo de falar. Pouco à pouco, a calma voltou àquela casa. Os vizinhos foram embora. Ficaram apenas os três: o casal e Urbano, o feliz mediador.
__ Pronto. Assim que é certo. Agora, como dois seres humanos, como dois civilizados, com tranquilidade, com cabeça fresca,  vocês resolvem tudo. E não esqueçam que a família vale quinhentas mil vezes mais do que um tapete de pele de onça.
__ Tem razão, tem razão __ concordaram Dona Haydée e Seu Manduca, já abraçados, pazes feitas, bastante felizinhos.
Urbano despediu-se e o casal ficou só. Não haveria mais brigas. Manduca, inclusive, telefonou para o Viveiros, cancelando a caçada que tinham combinado, no Mato Grosso,onde ele pretendia matar uma onça para, com a pele dela, fazer um tapete".

Chico Anísio

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